Vorcaro não tinha lado. Tinha acesso.
Enquanto direita e esquerda escolhem qual personagem do caso Master enxergar, a rede que atravessou o poder continua protegida pela disputa de narrativas.

O Brasil não investiga escândalos. Torce por eles.
Quando surge uma denúncia, a primeira pergunta raramente é “o que aconteceu?”. Antes dela vem outra, mais urgente e conveniente: “quem será atingido?”.
Se o nome pertence ao outro lado, exige-se prisão, renúncia e condenação antes mesmo de terminar a leitura. Se pertence ao próprio campo, aparecem imediatamente a prudência, o devido processo legal, a contextualização e uma súbita preocupação com a presunção de inocência.
O caso envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, oferece à polarização brasileira aquilo de que ela mais gosta: fatos suficientes para atacar o adversário e conexões demais para que alguém consiga sair completamente limpo.
À direita, os olhos estão voltados para Alexandre de Moraes. O ministro do Supremo tornou-se o principal antagonista institucional do bolsonarismo depois de conduzir processos que atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados. Agora, as mensagens atribuídas a Vorcaro e os documentos relacionados ao contrato de R$ 130 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, alimentam pedidos de investigação, afastamento e renúncia.
As explicações são necessárias. A condição de ministro do Supremo não coloca ninguém acima do escrutínio público. Pelo contrário: quanto maior o poder, maior deve ser a obrigação de prestar contas.
Mas parte da direita não parece interessada em compreender a extensão do caso. Está interessada em contemplar aquilo que acredita ser a derradeira queda de Moraes.
Se o mesmo rigor aplicado ao ministro fosse dirigido para dentro de casa, o entusiasmo talvez fosse menor.
Flávio Bolsonaro também aparece no universo de relações de Vorcaro. O senador confirmou ter procurado o banqueiro em busca de recursos para The Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro, embora negue qualquer irregularidade. Reportagens apontaram um pedido de R$ 61 milhões.
Para quem exige explicações sobre cada conversa de Moraes, milhões destinados a uma obra sobre o próprio pai não podem ser tratados como uma nota de rodapé.
A transparência que só funciona contra o adversário não é transparência. É munição.
A esquerda, por sua vez, olha para Flávio Bolsonaro como se tivesse encontrado a peça definitiva do quebra-cabeça — e tenta reduzir todo o caso a mais um capítulo da família que combate.
É compreensível que o envolvimento de um candidato à Presidência com dinheiro destinado a um filme sobre o pai desperte interesse público. O que não é aceitável é usar esse episódio para desviar os olhos de Moraes ou de qualquer personagem próximo ao próprio campo político.
Defender a democracia não significa conceder imunidade moral a quem afirma protegê-la. Alexandre de Moraes não se torna insuspeito porque enfrentou o golpismo. Serviços prestados ao Estado de Direito não funcionam como crédito antecipado para dispensar explicações futuras.
Quando a esquerda reage a todo questionamento sobre Moraes como se fosse necessariamente um ataque ao Supremo, ela comete o mesmo erro da direita que transforma qualquer investigação sobre os Bolsonaro em perseguição.
Ambas deixam de avaliar fatos e passam a proteger símbolos.
No meio dessa disputa está André Mendonça.
Indicado ao STF por Jair Bolsonaro, Mendonça retirou o sigilo do relatório policial que expôs as relações atribuídas a Vorcaro e Moraes. Tornar informações relevantes públicas pode ser um gesto de transparência. Mas a transparência também precisa explicar o seu enquadramento.
Por que o holofote institucional incidiu com tamanha força sobre o principal adversário do bolsonarismo enquanto o envolvimento de Flávio Bolsonaro permaneceu fora do centro dessa iniciativa?
Não há elementos suficientes para afirmar que Mendonça deliberadamente protegeu o senador. Mas existe razão suficiente para questionar se o rigor empregado contra Moraes será aplicado, com a mesma intensidade, a todos os demais personagens alcançados pelo caso.
Mendonça não deve ser criticado por divulgar informações sobre Moraes. Deve ser cobrado para que a luz não pare nele.
Se o relatório precisa ser público quando constrange Moraes, a transparência também precisa sobreviver quando se aproxima dos Bolsonaro.
O problema é que Daniel Vorcaro não parece ter organizado suas relações de acordo com a divisão ideológica que orienta as redes sociais.
Seu trânsito alcançou personagens associados à direita, à esquerda, ao Centrão, ao Judiciário e a diferentes áreas do Estado. A natureza dessas relações não é necessariamente igual, e a presença de um nome numa mensagem, agenda ou encontro não constitui prova automática de crime.
Mas o conjunto revela algo maior: para quem busca influência, ideologia pode ser apenas uma porta de entrada. O acesso é o verdadeiro patrimônio.
Vorcaro não precisava escolher um lado porque os lados, aparentemente, estavam disponíveis.
Enquanto militantes disputam a propriedade do escândalo, o banqueiro permanece como personagem secundário de uma história construída ao redor dele. Cada grupo escolhe uma conexão, recorta uma mensagem e apaga o restante da rede.
A direita mostra Moraes e esconde Flávio.
A esquerda mostra Flávio e relativiza Moraes.
O Centrão, como quase sempre, tenta permanecer na fotografia sem aparecer na legenda.
E parte das instituições parece descobrir o valor da transparência conforme o nome que será atingido.
Vorcaro não atravessou o poder apesar da polarização. Talvez tenha atravessado justamente porque cada lado estava ocupado demais vigiando apenas o outro.
Não se trata de dizer que todos são iguais. Essa frase, além de preguiçosa, pode esconder diferenças importantes entre contatos, contratos, pagamentos, favores e eventuais responsabilidades.
Trata-se de exigir que todos sejam examinados pela mesma régua.
Moraes precisa explicar o que lhe diz respeito.
Mendonça precisa demonstrar que sua atuação não obedece a conveniências políticas.
Flávio Bolsonaro precisa esclarecer a busca e o destino dos recursos ligados ao filme sobre o pai.
Os personagens associados à esquerda e ao Centrão também precisam responder por suas relações, sem usar a presença dos Bolsonaro como cortina.
E Daniel Vorcaro precisa voltar ao centro da história que seu dinheiro e seus contatos ajudaram a construir.
O caso Master não pertence à direita nem à esquerda. Pertence ao país que permitiu que poder econômico, influência política e proximidade institucional se confundissem até se tornarem difíceis de separar.
Quando cada campo exige apenas a parte da verdade que lhe convém, ninguém está combatendo o sistema.
Está apenas negociando qual pedaço dele deseja preservar.
O escândalo não escolheu um lado. Foram os lados que escolheram qual parte do escândalo fingir que não viram.
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