O sigilo caiu. Agora falta cair a mentira de que Vorcaro tinha lado.
O caso Master atravessa direita, esquerda, Centrão, mercado e Judiciário. Enquanto o país procura um culpado que caiba em sua torcida, os documentos revelam uma República na qual adversários públicos frequentam a mesma rede de acesso.

O sigilo caiu.
Não completamente, porque a transparência brasileira quase sempre chega acompanhada de uma nota de rodapé. Mas caiu o suficiente para que o caso Master deixe de ser contado apenas por vazamentos escolhidos, fragmentos convenientes e indignações organizadas conforme o lado político de quem lê.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, solicitou a abertura da Petição 15.556 e dos procedimentos nela contidos ou relacionados. André Mendonça, relator do caso, atendeu ao pedido.
A determinação é ampla, mas não absoluta. Permanecem protegidas as diligências cujo sigilo seja considerado indispensável para a realização da medida. Isso significa que parte das investigações em andamento poderá continuar fora do alcance público.
Não é o fim de todo o sigilo.
É o começo de uma transparência que precisará provar que não será seletiva.
Quando apenas uma parte do processo vem à luz, cada torcida escolhe o fragmento que melhor preserva sua inocência.
Até aqui, direita e esquerda reagiram ao caso Master como quem assiste a dois escândalos diferentes.
Para a direita, o centro da história é Alexandre de Moraes. O ministro que se tornou o principal antagonista do bolsonarismo aparece em registros recuperados do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A Polícia Federal identificou mensagens enviadas pelo banqueiro a um contato atribuído a Moraes, além de referências a encontros e conversas sobre o banco.
As respostas do ministro, porém, não foram integralmente recuperadas. Parte da comunicação teria ocorrido por meio de conteúdos de visualização única e arquivos temporários. Há rastros, horários, mensagens de Vorcaro e reconstruções periciais, mas nem sempre existe o outro lado da conversa.
Isso não torna o material irrelevante.
Também não autoriza completar as lacunas com aquilo que cada campo político gostaria de encontrar nelas.
O relatório também alcança o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O acordo, estimado em aproximadamente R$ 129 milhões ao longo de três anos, já era conhecido. Os novos registros ampliaram os questionamentos sobre o conhecimento e a participação de Moraes nas relações entre o escritório e o banco.
A defesa do escritório sustenta a legalidade da contratação. Moraes afirma que não atuou em processos relacionados ao Master ou a Vorcaro. Essas explicações precisam ser consideradas, e confrontadas com o conjunto dos documentos, não com a devoção ou o ressentimento que o ministro desperta.
Moraes não pode ser absolvido porque enfrentou o bolsonarismo.
Também não pode ser condenado porque o bolsonarismo deseja vingança.
Do outro lado, parte da esquerda encontrou seu esconderijo favorito: apontar para Flávio Bolsonaro.
O senador, candidato à Presidência, pediu a Vorcaro milhões de reais para o projeto Dark Horse, uma produção sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Flávio afirma que se tratava de patrocínio privado para um projeto privado, sem oferta de vantagem pública em troca.
A explicação não elimina o interesse jornalístico da aproximação.
Quem pede milhões a um banqueiro não pode, depois, tratar a relação como irrelevante apenas porque o dinheiro seria destinado a um filme. Principalmente quando esse banqueiro buscava acesso político em praticamente todas as direções.
Mas usar Flávio para desviar o olhar de Moraes é tão desonesto quanto usar Moraes para fingir que o bolsonarismo nunca conheceu Vorcaro.
O caso não respeitou a divisão das arquibancadas.
Daniel Vorcaro não parece ter procurado uma ideologia. Procurou acesso.
Vorcaro não tinha lado. Tinha contatos — e sabia que, em Brasília, um número de telefone pode valer mais do que uma convicção.
É nesse ponto que Fábio Faria se torna um personagem especialmente revelador.
Ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, Faria aparece no relatório da Polícia Federal como intermediário na aproximação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Segundo o material divulgado, ele compartilhou com o banqueiro um contato atribuído ao ministro, ajudou a organizar encontros e participou de conversas relacionadas à aproximação entre os dois.
Faria declarou que indicou o escritório de Viviane Barci de Moraes para atuar em uma questão na Justiça paulista, mas afirmou não ter participado da contratação e desconhecer os valores acertados.
Não existe, até o momento, uma condenação que permita tratá-lo como culpado por um crime relacionado a esses fatos.
Existe, porém, uma contradição política difícil de ignorar.
Enquanto o bolsonarismo apresentava Moraes aos eleitores como inimigo absoluto, um ex-ministro de Bolsonaro aparentemente sabia como chegar até ele — e ajudava outros a fazer o mesmo.
Na televisão, inimigos.
Nos bastidores, contatos em comum.
Essa é uma das especialidades da política brasileira: transformar divergência em espetáculo para quem vota e preservar a circulação entre os camarotes para quem manda.
Patrícia Abravanel, mulher de Fábio Faria, não responde pelas relações políticas do marido. Até o momento, não há elemento apresentado que lhe atribua participação nos fatos investigados. Arrastá-la para o centro do caso seria substituir responsabilidade individual por associação familiar — exatamente o tipo de injustiça que uma publicação séria não deve cometer.
A vida familiar não é a notícia.
O uso político da família, contudo, merece discussão.
Parte da direita brasileira construiu sua identidade prometendo defender “Deus, pátria e família”. Transformou a fé em slogan, o comportamento privado em pauta pública e os chamados bons costumes em instrumento para vigiar a vida dos outros.
Em nome de Deus, políticos decidiram quais famílias seriam legítimas, quais afetos seriam toleráveis e quais cidadãos deveriam ser tratados como ameaça moral.
Longe dos palanques, entretanto, os costumes parecem muito mais negociáveis.
Segundo reportagem da revista Piauí, Vorcaro promoveu, em outubro de 2023, uma festa reservada na boate Madame Satã, em São Paulo. O encontro teria reunido cerca de vinte homens e 120 mulheres, com celulares retidos na entrada. A publicação afirma que Fábio Faria ficou responsável por convidar alguns dos homens.
Isso não comprova que Faria tenha comparecido à festa e não permite afirmar que tenha participado do que ocorreu no local.
Permite observar algo maior: festas, viagens, jantares e encontros reservados integravam o ambiente usado por Vorcaro para cultivar relações com pessoas influentes.
Não é o nome Madame Satã que torna a história escandalosa.
Não são as mulheres presentes, que não devem ser reduzidas a objetos numa narrativa protagonizada por homens poderosos.
Também não cabe ao Estado ou ao jornalismo policiar a vida sexual de adultos.
O problema começa quando ambientes privados funcionam como salas informais de relacionamento entre dinheiro e poder, protegidas justamente pela ausência de registros.
Não importa apenas o que adultos consentem fazer numa festa.
Importa o que autoridades, políticos e empresários podem combinar depois dela.
“Deus, pátria e família” serviam para vigiar a vida dos eleitores. Nos bastidores, o único mandamento era deixar o celular na porta.
A religião não está no banco dos réus.
A fé de milhões de brasileiros tampouco.
Quem precisa prestar contas são os políticos que usam o nome de Deus como selo de honestidade, escudo eleitoral e autorização para medir a moral alheia, mas tratam os próprios princípios como material de campanha: indispensável diante das câmeras e descartável quando elas são desligadas.
“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” foi oferecido ao eleitor como declaração de valores.
O caso Master obriga o país a perguntar quantos desses valores sobrevivem quando os poderosos acreditam que ninguém está olhando.
Mas seria confortável demais encerrar a discussão na direita.
O alcance de Vorcaro passou por diferentes campos partidários, pelo Centrão, pelo mercado financeiro e pelo Judiciário. É precisamente isso que torna o caso tão perigoso — e tão resistente às narrativas prontas.
Cada grupo deseja uma abertura de sigilo cuidadosamente direcionada ao adversário.
A direita quer que o processo termine em Alexandre de Moraes.
A esquerda quer que termine nos Bolsonaro.
O Centrão prefere que ninguém examine por muito tempo sua agenda de encontros.
E as instituições parecem mais preocupadas em administrar a própria crise do que em explicar por que um banqueiro investigado acumulou tamanho acesso aos centros de decisão da República.
A retirada do sigilo pode mudar isso, desde que a publicidade alcance o contexto, e não somente novos recortes selecionados.
É necessário conhecer a cronologia completa, identificar quem procurou quem, verificar quais pedidos foram atendidos e separar relações sociais, ainda que constrangedoras, de atos que possam configurar influência indevida ou crime.
A proximidade com Vorcaro não constitui culpa automática.
Mas poder sem transparência produz uma dívida pública de explicações.
Em público, Brasília se divide entre inimigos. Em privado, alguém sempre tem o telefone do adversário.
O Brasil não precisa escolher entre investigar Moraes e investigar os Bolsonaro.
Não precisa proteger Mendonça porque foi indicado por Bolsonaro nem suspeitar dele apenas pela mesma razão.
Não precisa poupar representantes da esquerda para evitar que a direita comemore, nem absolver aliados da direita para impedir que a esquerda explore o caso eleitoralmente.
Precisa investigar todos.
Com o mesmo rigor.
Com os mesmos critérios.
E com documentos que possam ser conhecidos sempre que o sigilo não for indispensável à investigação.
O caso Master pode revelar crimes, conflitos éticos, tráfico de influência ou simplesmente relações incômodas que não configuram ilegalidade. Caberá às autoridades demonstrar o que pertence a cada categoria.
O que já não pode sobreviver é a fantasia de que Daniel Vorcaro entrou em Brasília por uma porta ideológica.
Ele circulou por várias.
A direita e a esquerda continuarão tentando decidir de quem é o escândalo. Talvez porque admitir a resposta seja mais doloroso: o escândalo pertence a um sistema no qual as diferenças políticas parecem imensas no palanque e surpreendentemente pequenas quando dinheiro, proteção e acesso se sentam à mesma mesa.
O sigilo começou a cair.
Agora veremos quem ainda consegue permanecer escondido atrás dele.
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