BROOM • MUNDO
Voltar
25 ANOS DEPOIS

O 11 de Setembro durou algumas horas. Suas consequências já duram 25 anos.

Os aviões atingiram edifícios. A resposta atravessou fronteiras, normalizou guerras, ampliou a vigilância e transformou o medo numa política que o mundo ainda não conseguiu encerrar.

Redação BROOM6 min de leitura
Explosão na Torre Sul do World Trade Center após o impacto do segundo avião, enquanto a Torre Norte aparece coberta por fumaça.
O segundo avião atinge a Torre Sul do World Trade Center, em Nova York, na manhã de 11 de setembro de 2001. O ataque transformaria aquele dia numa ruptura política, histórica e emocional cujos efeitos ainda atravessam o mundo.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, 19 integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos.

Dois atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Um foi lançado contra o Pentágono. O quarto caiu na Pensilvânia depois que passageiros e tripulantes reagiram aos sequestradores.

Foram 2.977 mortos de mais de 90 países.

Os ataques duraram algumas horas. O mundo construído a partir deles permanece de pé 25 anos depois.

As torres caíram diante das câmeras. O que se ergueu em seguida foi menos visível: uma arquitetura política sustentada pelo medo, pela vigilância e pela promessa de que qualquer excesso poderia ser tolerado desde que viesse acompanhado da palavra “segurança”.

O 11 de Setembro não terminou quando a fumaça desapareceu de Manhattan.

Ele entrou nos aeroportos, nas leis, nos serviços de inteligência, nas fronteiras, nos discursos eleitorais e na vida de milhões de pessoas que nunca estiveram em Nova York.

O terrorismo derrubou as torres. O medo ajudou a construir tudo o que veio depois.

Menos de um mês após os atentados, os Estados Unidos iniciaram operações militares no Afeganistão. A justificativa era atingir a Al-Qaeda e o regime Talibã, que oferecia abrigo à organização.

A operação que parecia ser uma resposta delimitada transformou-se na guerra mais longa da história norte-americana.

Depois veio o Iraque.

A invasão de 2003 foi apresentada dentro da atmosfera da chamada Guerra ao Terror, embora a Comissão do 11 de Setembro tenha afirmado não ter encontrado evidências de que o regime de Saddam Hussein tivesse cooperado com a Al-Qaeda na execução de ataques contra os Estados Unidos.

A ausência dessa ligação não impediu a guerra.

Quando o medo passa a organizar a política, a prova frequentemente chega depois da decisão (quando chega).

O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que as guerras e operações iniciadas pelos Estados Unidos depois do 11 de Setembro custaram mais de US$ 8 trilhões. Segundo o levantamento, entre 905 mil e 940 mil pessoas morreram diretamente em zonas de guerra até 2023.

Ao considerar mortes indiretas provocadas por fome, doenças, destruição de hospitais, colapso econômico e falta de acesso a serviços básicos, o projeto estima que o número total possa estar entre 4,5 milhões e 4,7 milhões.

São estimativas, não uma contagem definitiva. A dificuldade de calcular os mortos não reduz a dimensão da tragédia. Revela o tamanho dela.

Ao menos 38 milhões de pessoas foram deslocadas pelas guerras posteriores aos atentados.

O mundo prometeu caçar terroristas. No caminho, produziu viúvas, órfãos, refugiados, cidades destruídas e gerações inteiras criadas dentro de conflitos que começaram antes de elas nascerem.

Mas a transformação não ocorreu apenas nos campos de batalha.

Em 26 de outubro de 2001, apenas 45 dias depois dos ataques, George W. Bush sancionou o USA Patriot Act. A lei ampliou os poderes de investigação, compartilhamento de informações e vigilância do governo norte-americano.

A urgência ajudou a aprová-la. O medo dificultou contestá-la.

Questionar os novos poderes podia parecer ingenuidade. Defender limites podia ser interpretado como fraqueza. A privacidade passou a ocupar o banco dos réus, obrigada a provar que não oferecia perigo à segurança nacional.

Vieram escutas mais abrangentes, coleta de dados, detenções, deportações e um aparato de vigilância que não desapareceu quando a emergência deixou de ser novidade.

Porque esse é um dos mecanismos mais eficientes do poder: aquilo que nasce como exceção aprende rapidamente a viver como regra.

A emergência tem prazo. Os poderes criados em nome dela quase nunca têm.

Também havia um suspeito pronto.

Milhões de muçulmanos passaram a carregar no rosto, no nome, na roupa ou na fé a obrigação de responder por um crime que não cometeram.

A Al-Qaeda realizou os atentados. A suspeita, porém, ultrapassou a organização terrorista e alcançou comunidades inteiras.

Pessoas foram tratadas como ameaça em aeroportos, escolas, locais de trabalho e espaços públicos. Mesquitas foram vigiadas. Famílias aprenderam a medir palavras, esconder hábitos e antecipar desconfianças.

Vinte e cinco anos depois, o estigma permanece.

Uma pesquisa publicada pelo Pew Research Center em setembro de 2026 mostra que muitos norte-americanos ainda enxergam o Islã e os muçulmanos pela lente do 11 de Setembro. Entre os muçulmanos consultados, a maioria afirmou existir muita discriminação contra sua comunidade nos Estados Unidos e considerou injusta a forma como a imprensa retrata sua religião.

O terrorismo matou milhares naquele dia. A generalização condenou milhões a uma suspeita sem data para terminar.

É necessário lembrar que os atentados não foram uma abstração política.

Havia pessoas nos aviões. Havia trabalhadores nos escritórios. Havia bombeiros subindo enquanto outros desciam. Havia telefonemas de despedida, mesas que ficaram vazias e famílias que receberam uma ausência impossível de organizar.

Recordar as vítimas exige respeito por essa dimensão humana.

Mas memória não pode significar apenas repetir as imagens das torres caindo.

Se a lembrança termina no impacto dos aviões, ela absolve tudo o que foi feito depois em nome deles.

O luto não deveria servir como autorização permanente para guerras sem fim, prisões clandestinas, tortura, perseguição religiosa ou vigilância sem limites.

Criticar essas consequências não relativiza o terrorismo. Faz o contrário: recusa a ideia de que uma atrocidade possa justificar outras.

Os Estados Unidos não foram os únicos transformados. Governos ao redor do mundo aprenderam a usar a linguagem antiterrorista para ampliar poderes, endurecer fronteiras e enquadrar adversários.

O medo tornou-se exportável.

A tecnologia também mudou. Em 2001, a vigilância dependia de telefonemas, registros bancários e deslocamentos físicos. Hoje, cada pessoa carrega no bolso um aparelho capaz de revelar localização, relações, preferências, hábitos e rotinas.

O aparato criado depois dos atentados encontrou um mundo muito mais fácil de observar.

E nós nos acostumamos.

Tiramos os sapatos nos aeroportos. Aceitamos câmeras, bases de dados, reconhecimento facial e controles cada vez mais invasivos. Entregamos informações a governos e empresas em troca da sensação, nem sempre comprovada, de estarmos protegidos.

Vinte e cinco anos são tempo suficiente para uma criança nascer, crescer e chegar à vida adulta sem conhecer o mundo anterior ao 11 de Setembro.

Para essa geração, a vigilância parece normal. A guerra parece permanente. O controle parece parte natural da viagem. A suspeita parece uma precaução razoável.

É assim que uma ruptura histórica vence: quando deixa de parecer ruptura.

Hoje, as luzes voltarão a desenhar as Torres Gêmeas no céu de Nova York. Nomes serão lidos. Flores serão deixadas. O silêncio ocupará, por alguns minutos, o lugar do ruído.

É necessário lembrar os mortos.

Mas também é necessário olhar para o mundo que os sobreviventes receberam.

O 11 de Setembro durou algumas horas.

Suas consequências ganharam leis, orçamentos, armas, prisões, fronteiras e uma linguagem própria. Depois de 25 anos, talvez a pergunta mais incômoda já não seja o que mudou naquele dia.

É quanto dessa mudança aceitamos como definitiva.

Conversa

Comentários

O debate continua depois da matéria. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Todos os campos são obrigatórios.

Seu e-mail não será publicado. Ao enviar, você concorda com a moderação editorial da BROOM.