ESPECIAL BROOMEleições 2026
← NotíciasBROOMEleições 2026
Campanha

Bolsonaro da Shopee, Plínio Trump e Lula do Bem: quando o nome vira campanha

Nas eleições de 2026, candidatos recorrem a apelidos, sósias e referências conhecidas para disputar algo que vem antes do voto: a atenção do eleitor.

Redação BROOM7 min de leitura
Bolsonaro
da Shopee
Plínio
Trump
Lula
do Bem
QUANDO O NOME VIRA CAMPANHA

Bolsonaro da Shopee. Plínio Trump. Dr. Célio, Lula do Bem. Walcy Vieira — Mick Jagger.

Não é a escalação de um programa dominical nem o resultado de uma busca que deu errado. São nomes apresentados à Justiça Eleitoral por candidatos que pretendem aparecer na urna em 2026.

Antes que o eleitor conheça uma proposta, compare um programa de governo ou descubra o que exatamente faz um deputado, existe uma batalha mais urgente: ser notado.

Nesse campeonato, o nome de urna deixou de ser apenas uma identificação. Virou slogan, referência cultural, atalho de memória e, em alguns casos, uma campanha inteira comprimida em poucos caracteres.

O Bolsonaro que veio do marketplace

Vilmar Rigo, produtor rural e empresário, registrou sua candidatura a deputado federal por Mato Grosso pelo Novo com o nome Bolsonaro da Shopee.

O apelido nasceu da semelhança física com Jair Bolsonaro e já circulava antes da candidatura. Ao levá-lo para a urna, Rigo transforma a comparação em marca eleitoral: o eleitor não precisa conhecer sua trajetória para entender imediatamente a referência.

A fórmula junta dois universos perfeitamente reconhecíveis pela internet brasileira. De um lado, Bolsonaro. Do outro, a expressão “da Shopee”, usada para descrever uma versão alternativa — normalmente mais barata, improvisada ou inesperada — de alguma coisa famosa.

É quase um plano de comunicação pronto. O nome apresenta o personagem, produz a piada e oferece potencial para meme. Tudo isso antes da primeira proposta.

Segundo os dados eleitorais consultados pela BROOM, Vilmar Rigo concorre pelo Novo, em Mato Grosso, com o número 3022. Seu pedido aparecia como “aguardando julgamento”, situação comum durante o processamento dos registros de candidatura.

Plínio Trump e a política por associação

Em Minas Gerais, o piloto de avião Plínio Vicentin Junior registrou o nome Plínio Trump para disputar uma vaga de deputado federal pelo Novo.

A referência atravessa fronteiras. Plínio ficou conhecido pela semelhança com Donald Trump e decidiu incorporar o sobrenome do político americano à candidatura. Seu número é 3057.

O efeito é imediato. “Plínio Vicentin Junior” exige apresentação. “Plínio Trump” já chega com cabelo, personagem, posição política presumida e uma franquia internacional inteira no pacote.

Isso não significa que o candidato e o presidente americano sejam politicamente idênticos. Significa que a associação economiza tempo. E, numa eleição disputada entre centenas de nomes, economizar o tempo do eleitor pode ser mais valioso do que economizar palavras.

A política descobriu algo que a publicidade sabe há décadas: familiaridade chama atenção. Mesmo quando ela vem emprestada.

O Lula do Bem está no PL

Em São Paulo, Célio José de Morais aparece como Dr. Célio, Lula do Bem. Médico, vereador em Jaboticabal e candidato a deputado federal, ele concorre pelo PL com o número 2207.

Aqui, a associação ganha uma camada extra. O candidato é filiado ao partido de Jair Bolsonaro, mas utiliza um apelido que remete diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A explicação está na aparência: Célio é conhecido pela semelhança física com Lula e adotou “Lula do Bem” como identidade pública.

O nome funciona como uma pequena confusão ideológica dentro da urna. Tem Lula, mas é do PL. Tem “do Bem”, como se houvesse uma auditoria moral incluída no apelido. E tem “Dr. Célio” na frente, para lembrar que, por trás da comparação, existe uma pessoa tentando construir identidade própria.

A candidatura mostra que a lógica do nome de urna não obedece necessariamente às divisões partidárias. O que importa é o reconhecimento. Se o eleitor parar por alguns segundos para entender o que está vendo, a primeira missão já foi cumprida.

Mick Jagger, agora em versão goiana

Goiás também tem sua contribuição para o encontro entre política, música e memória visual.

Walcy Calixto Vieira registrou o nome Walcy Vieira — Mick Jagger para concorrer a deputado estadual pelo PT, com o número 13444. Na consulta realizada pela BROOM, o pedido ainda aguardava julgamento.

A referência ao vocalista dos Rolling Stones amplia o repertório. Se alguns candidatos procuram associação com líderes políticos, outros recorrem a celebridades conhecidas por praticamente qualquer pessoa que já tenha ligado um rádio, visto uma camiseta de banda ou frequentado um bar com decoração britânica.

Na urna, Mick Jagger não canta, não dança e provavelmente não sabe que participa da eleição goiana. Ainda assim, ajuda a produzir reconhecimento. A celebridade empresta a imagem. O candidato espera receber de volta a atenção.

A urna também é uma disputa de memória

A legislação permite que o candidato utilize prenome, sobrenome, cognome, nome abreviado, apelido ou o nome pelo qual seja conhecido. O limite é de 30 caracteres, e a escolha não pode gerar dúvida sobre a identidade, atentar contra o pudor nem ser considerada ridícula ou irreverente.

A expressão “ridículo ou irreverente” parece simples até alguém precisar decidir onde termina o apelido popular e começa a paródia eleitoral.

A própria Justiça Eleitoral admite o uso de marcas ou referências privadas no nome de urna, desde que sejam respeitados os critérios de identificação. Isso abre espaço para uma criatividade que o legislador talvez não imaginasse — mas que a internet certamente imaginaria.

No momento do voto, a urna apresenta nome, fotografia, cargo disputado e sigla partidária. Nesse ambiente, cada elemento ajuda o eleitor a reconhecer quem procura. Um nome conhecido ou engraçado pode funcionar como uma placa luminosa em uma avenida cheia de candidatos.

Não garante voto. Mas evita o pior destino de uma campanha: passar despercebida.

Nem todo apelido nasceu numa agência

Nem sempre esses nomes foram inventados em uma sala de marketing quinze minutos antes da convenção partidária. Alguns candidatos já eram chamados assim em suas cidades, profissões ou redes sociais. O apelido pode fazer parte de uma identidade pública construída ao longo de anos.

Mas levá-lo para a urna continua sendo uma escolha política. Ao registrar uma referência famosa, o candidato decide que aquela associação será uma das principais formas de apresentação ao eleitor. A semelhança deixa de ser apenas curiosidade e passa a trabalhar pela candidatura.

É nesse ponto que o nome vira comunicação.

Primeiro o clique, depois a proposta

Durante muito tempo, campanhas eleitorais dependeram principalmente de comícios, santinhos, carros de som e minutos preciosos na televisão. Agora também precisam sobreviver ao feed.

A candidatura concorre com vídeos de animais, brigas de influenciadores, receitas rápidas, partidas de futebol, anúncios de colchão e uma quantidade industrial de indignação. Para interromper essa rolagem, o nome precisa produzir alguma reação.

Pode ser curiosidade. Pode ser riso. Pode ser irritação. O único fracasso absoluto é a indiferença.

Bolsonaro da Shopee, Plínio Trump, Lula do Bem e Mick Jagger não são apenas nomes curiosos de uma eleição brasileira. São sintomas de uma política que aprendeu a operar dentro da economia da atenção.

A proposta ainda importa. O partido ainda importa. O histórico ainda importa. Mas tudo isso só entra em cena depois que alguém decide olhar.

Nas eleições de 2026, alguns candidatos já entenderam a ordem das coisas.

Primeiro vem o nome. Depois, com sorte, o eleitor pergunta quem é.
← Voltar para Eleições 2026