Rick era demais. Até quem não era fã conhecia alguma coisa.
O cantor e compositor Rick morreu aos 59 anos em um acidente de helicóptero. Sua obra, porém, já havia atravessado o sertanejo e chegado até quem nunca comprou um disco da dupla.

Eu não era fã de Rick & Renner.
Não acompanhava os lançamentos, não sabia (e não sei) a ordem dos discos e provavelmente perderia uma boa quantia de dinheiro se alguém me desafiasse a completar o repertório da dupla.
Mas conhecia Rick.
Ou, pelo menos, conhecia alguma coisa que ele havia cantado, composto ou ajudado a colocar na memória do país.
Essa talvez seja uma das medidas mais honestas do tamanho de um artista: quando sua obra chega até quem nunca se declarou parte do público.
Rick, nome artístico de Geraldo Antônio de Carvalho, morreu aos 59 anos após a queda de um helicóptero em Santa Catarina. A aeronave havia desaparecido na segunda-feira, 21 de setembro, e foi encontrada no dia seguinte na Serra Catarinense. Os cinco ocupantes morreram.
A causa do acidente ainda não foi oficialmente determinada.
O que já se pode dizer é que o sertanejo brasileiro perdeu uma de suas figuras mais reconhecíveis, embora muita gente talvez conhecesse melhor suas músicas do que seu nome completo.
Uma dupla que tocava mesmo quando você não estava ouvindo
Rick formou sua parceria com Renner nos anos 1980. A dupla ganhou projeção nacional na década seguinte e atravessou o período em que o sertanejo romântico deixou de ser um gênero concentrado em determinadas regiões para ocupar rádios, programas de auditório, festas, churrascos e viagens de carro por todo o país.
“Ela é Demais”, “Nos Bares da Cidade”, “Cara de Pau”, “Filha”, “Fim de Semana” e “Nóis Tropica, Mas Não Cai” ajudaram a transformar Rick & Renner em uma dessas duplas que não precisavam estar na sua playlist para fazer parte da sua vida.
As músicas estavam no rádio do vizinho, no bar, no ônibus, na televisão da sala e naquela festa em que alguém inevitavelmente começava a cantar antes mesmo de perceber.
Não era apenas sucesso. Era presença.
O compositor que também vivia na voz dos outros
Rick não deixou sua marca somente como intérprete.
Como compositor, teve músicas gravadas por nomes como Chitãozinho & Xororó, João Paulo & Daniel, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone, Milionário & José Rico e Eduardo Costa.
Canções como “Página de Amigos”, “Hoje Eu Sei”, “Conta pra Ela”, “Agenda Rabiscada” e “Nunca Amei Assim” ajudaram a formar o vocabulário sentimental de uma geração.
Amor, abandono, saudade, bar, estrada, reencontro e aquela dignidade precária de quem sofre muito, mas ainda encontra fôlego para cantar.
Durante anos, Rick esteve diante do público. Em muitos outros momentos, esteve escondido nos créditos de uma música que o Brasil conhecia de cor.
A notícia termina. A música não.
Mortes repentinas produzem uma espécie de corrida para organizar uma vida inteira antes do fechamento da página.
Surgem as listas de sucessos, as fotografias antigas, os números da carreira e os vídeos que até ontem pareciam apenas parte do arquivo. Tudo ganha um novo peso porque, de repente, não haverá uma próxima apresentação capaz de atualizar aquela história.
Mas uma obra popular não permanece apenas nos arquivos.
Ela continua na memória involuntária. Na música cujo título esquecemos, mas cujo refrão aparece inteiro. No rádio de uma cidade distante. Na voz de outro cantor. Na lembrança de uma viagem que parecia comum até ganhar trilha sonora.
Talvez eu nunca tenha sido fã de Rick.
Mas, olhando para a quantidade de músicas que reconheço, percebo que isso nunca significou que ele estivesse longe.
Rick já estava ali.
Como tantos artistas realmente populares, ele fazia parte da paisagem antes mesmo que a gente aprendesse a prestar atenção.
Hoje, o Brasil se despede do homem.
As músicas, essas ainda vão demorar muito para ir embora.
Há artistas que a gente escolhe ouvir. Outros simplesmente já estavam tocando quando chegamos.
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