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DIA NACIONAL DO RÁDIO

Hoje é Dia do Rádio. E talvez a internet tenha passado anos reinventando o que ele já fazia

Antes do podcast, do streaming e da live, uma voz já atravessava distâncias para informar, entreter e fazer companhia a quem nem conhecia.

Redação BROOM7 min de leitura
Mulher de óculos sentada à mesa, com o rosto apoiado nas mãos diante de um rádio portátil, ao lado de uma janela e de um vaso com flores.
Presente nas casas brasileiras há mais de um século, o rádio atravessou mudanças tecnológicas sem perder seu lugar como fonte de informação, entretenimento e companhia.

Quando o rádio chegou ao Brasil, ninguém precisou criar uma senha, aceitar cookies ou escolher entre o plano gratuito e a versão premium.

Era só ligar.

Do outro lado, uma voz aparecia trazendo música, notícia, futebol, novela, previsão do tempo e, dependendo do horário, um conselho amoroso que provavelmente não havia sido solicitado.

Parece simples. E era justamente essa a força.

Nesta sexta-feira, 25 de setembro, o Brasil celebra oficialmente o Dia Nacional do Rádio. A data entrou no calendário nacional em 2025 e homenageia o nascimento de Edgard Roquette-Pinto, um dos nomes fundamentais para a consolidação da radiodifusão no país.

Mais de um século depois das primeiras transmissões, o aparelho que ocupava o centro da sala pode até ter perdido espaço. O rádio, não.

Ele apenas aprendeu a sair de dentro do rádio.

Antes do feed, existia o dial

Um dos principais marcos da história da radiodifusão brasileira aconteceu em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência.

Naquele dia, a voz do então presidente Epitácio Pessoa foi transmitida do Rio de Janeiro e recebida em aparelhos instalados também em outras cidades. A programação incluiu ainda trechos da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes.

Para quem cresceu recebendo vídeos enviados do outro lado do planeta antes mesmo de terminar o café, talvez seja difícil medir o tamanho daquele espanto.

Uma voz estava viajando sem fios.

Não havia tela, imagem ou mapa mostrando o caminho. Havia apenas o som chegando de algum lugar distante. Para parte do público, aquilo parecia menos uma tecnologia e mais algum tipo de truque muito bem executado.

A experiência de 1922 não criou imediatamente uma indústria. Mas mostrou que existia algo poderoso naquela invenção.

No ano seguinte, Roquette-Pinto e Henrique Morize fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, dedicada à educação, à ciência e à cultura. O rádio brasileiro começava a encontrar não apenas uma frequência, mas uma função.

Um país aprendeu a ouvir junto

Antes da televisão ocupar as salas, o rádio já reunia famílias em torno de histórias que ninguém conseguia ver.

E talvez por isso mesmo todos vissem.

As radionovelas construíam casas, cidades e personagens inteiros dentro da cabeça do público. Os programas de auditório transformavam cantores em ídolos nacionais. As transmissões esportivas faziam uma bola percorrer o campo na velocidade da narração.

Para acompanhar um jogo, não era preciso enxergar o gramado. Bastava acreditar no locutor.

O rádio também ajudou a levar informação a regiões onde jornais demoravam a chegar e a televisão ainda era uma possibilidade distante. Em um país imenso, com diferenças geográficas, econômicas e culturais igualmente imensas, ele criou uma experiência rara: milhões de pessoas ouvindo a mesma coisa ao mesmo tempo.

Nem sempre com a mesma interpretação, claro. Isso o Brasil resolveria manter em todas as tecnologias seguintes.

A voz ganhou sotaque

O rádio nunca foi exatamente uma coisa só.

Ele era nacional quando transmitia acontecimentos que mobilizavam o país inteiro. Mas também era profundamente local.

Era a notícia do bairro, o anúncio do comércio da esquina, o resultado do campeonato da cidade, a música pedida pelo ouvinte e o recado enviado para alguém que talvez estivesse escutando.

Enquanto outros meios buscavam falar com todo mundo, o rádio aprendeu a falar com quem estava ali.

Essa proximidade ajudou a criar uma linguagem menos solene e mais íntima. O apresentador não parecia discursar para uma multidão abstrata. Parecia conversar com uma pessoa específica, dentro de uma cozinha, de um carro, de uma oficina ou de um quarto.

Muito antes de a internet descobrir o valor de formar comunidades, o rádio já sabia o nome dos ouvintes mais fiéis.

Então o rádio saiu da sala

Durante décadas, ele foi um móvel.

Depois, ficou menor. Entrou no carro, coube no bolso, acompanhou o trabalho e passou a circular pela cidade. Era possível ouvir enquanto se cozinhava, dirigia, trabalhava ou fingia prestar atenção em outra coisa.

Essa liberdade continua sendo uma das grandes vantagens do áudio.

A televisão pede os olhos. O texto pede leitura. O rádio aceita dividir a atenção com a vida.

Ele não exige que o mundo pare para ser consumido. Entra nos espaços que já existem.

Foi assim que sobreviveu a todas as previsões sobre seu desaparecimento.

Primeiro, a televisão acabaria com o rádio. Depois, seria a internet. Em seguida vieram as plataformas de streaming, as redes sociais, os vídeos curtos e os podcasts.

O rádio ouviu tudo isso e continuou tocando.

A internet tentou matar o rádio. Acabou copiando muita coisa

Boa parte do vocabulário atual da internet parece novidade até ser observada com um pouco mais de calma.

Programação ao vivo? O rádio fazia.

Conversas longas com convidados? Também.

Participação da audiência? O telefone já entrava no estúdio muito antes dos comentários aparecerem na tela.

Programas divididos por assunto, apresentadores com comunidades fiéis, publicidade falada, boletins rápidos e conteúdo para acompanhar a rotina também não começaram com um aplicativo.

Até a sensação de proximidade que tantos criadores digitais tentam construir já era parte da linguagem radiofônica. A diferença é que o locutor não precisava pedir que ninguém ativasse o sininho.

A internet não substituiu essa lógica. Ela ampliou seus caminhos.

Hoje, emissoras transmitem pelo dial, pelo site, pelo aplicativo, pelas redes sociais e por plataformas de vídeo. Um programa pode ir ao ar ao vivo, virar corte, arquivo, podcast e postagem.

O rádio deixou de ser apenas um aparelho. Virou uma linguagem que circula entre aparelhos.

Podcast não é rádio. Mas os dois são parentes próximos

Podcast e rádio não são a mesma coisa.

O rádio tradicional é construído em fluxo, com uma programação que acontece naquele momento. O podcast oferece escolha, catálogo e consumo sob demanda. Um depende mais do encontro; o outro, da disponibilidade.

Mas os dois compartilham algo essencial: a confiança na voz.

Quando alguém acompanha um apresentador por meses ou anos, aquela voz deixa de ser apenas uma fonte de informação. Ela passa a fazer parte da rotina. É reconhecida pelo ritmo, pelo vocabulário, pelo silêncio e até pela forma de respirar antes de uma notícia importante.

Isso ajuda a explicar por que o áudio continua relevante mesmo em uma cultura dominada por imagens.

Segundo o estudo Inside Audio 2025, da Kantar IBOPE Media, 92% dos brasileiros consultados ouviram algum formato de áudio nos 30 dias anteriores ao levantamento. Nas principais regiões metropolitanas pesquisadas, o rádio alcançou 79% da população, com média diária de 3 horas e 47 minutos entre os ouvintes.

Não parece exatamente o retrato de um meio esperando o próprio funeral.

O aparelho perdeu espaço. O hábito, não!

Talvez a maior vitória do rádio seja ter se tornado difícil de localizar.

Ele está no aparelho antigo sobre a geladeira, mas também no painel do carro. Está no celular, no computador, na caixa de som inteligente e na transmissão que alguém acompanha pelo YouTube enquanto insiste que está apenas ouvindo.

Mudaram o suporte, a velocidade e a forma de distribuição. A necessidade humana permaneceu praticamente intacta.

Ainda queremos uma voz que organize o caos da manhã.

Uma música que interrompa um pensamento.

Alguém que conte o que aconteceu.

Uma companhia que não exija resposta.

Em uma internet desenhada para capturar os olhos, o rádio continua ocupando um território mais discreto. Ele não precisa aparecer para estar presente.

O rádio nunca foi apenas uma caixa

Há mais de um século, o rádio brasileiro começou impressionando pessoas com uma voz que atravessava o espaço sem fios.

Hoje, carregamos milhares dessas vozes no bolso. Podemos escolher o assunto, acelerar a conversa, pular a publicidade e abandonar um episódio na metade.

Ganhamos controle. Talvez tenhamos perdido um pouco do acaso.

O rádio sempre trouxe também aquilo que o ouvinte não estava procurando: uma música desconhecida, uma notícia inesperada, uma história encontrada por acidente no meio do caminho.

Ele continua vivo porque nunca dependeu apenas da tecnologia que o carregava.

Dependia da conversa.

Do tempo compartilhado.

Da sensação de que, em algum lugar, havia alguém falando enquanto outra pessoa escutava.

A internet passou anos criando nomes novos para isso.

O rádio simplesmente chamava de estar no ar.

O rádio saiu do aparelho. Nunca saiu da nossa rotina.
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