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TELEVISÃO BRASILEIRA

A TV brasileira faz aniversário. E talvez conte a história do Brasil melhor do que imaginamos

Antes do streaming, do algoritmo e do vídeo de 15 segundos, havia uma sala, uma televisão e quase todo mundo olhando para a mesma coisa.

Redação BROOM5 min de leitura
Assis Chateaubriand fala ao microfone diante de uma câmera de televisão durante a inauguração da TV Tupi, em São Paulo, em 1950.
Assis Chateaubriand durante a inauguração da TV Tupi, em 18 de setembro de 1950, marco do início da televisão no Brasil.
Em 18 de setembro de 1950, a TV Tupi entrava no ar em São Paulo e inaugurava oficialmente a televisão brasileira.

Hoje parece banal apertar um botão e encontrar milhares de coisas para assistir. Naquele dia, o problema era exatamente o contrário: praticamente ninguém tinha televisão para ver a televisão que acabava de nascer.

Assis Chateaubriand, responsável pela criação da Tupi, havia importado aparelhos para possibilitar que a novidade fosse acompanhada. A televisão brasileira começava de um jeito bastante brasileiro: primeiro criamos o espetáculo; depois damos um jeito de arrumar plateia.

Mas ninguém estava inaugurando apenas um eletrodoméstico.

Estava começando uma máquina que, nas décadas seguintes, ajudaria a decidir sobre o que o Brasil conversaria, como se vestiria, quais músicas ouviria, quais personagens amaria e até como enxergaria a si mesmo.

Antes do algoritmo, existia a grade

A televisão brasileira nasceu praticamente ao vivo.

Sem videotape disponível nos primeiros anos, errar significava errar diante de todo mundo. E muito do que aparecia naquela tela ainda tinha sotaque de rádio: profissionais, formatos e programas migraram diretamente de um meio para o outro.

Em 1951 surgiu “Sua Vida me Pertence”, considerada a primeira telenovela brasileira.

Era exibida apenas duas vezes por semana.

Também entrou para a história por outro motivo: nela aconteceu aquele que é lembrado como o primeiro beijo da televisão brasileira, entre Vida Alves e Walter Forster.

O Brasil ainda não sabia, mas estava ensaiando uma de suas maiores especialidades culturais.

A novela.

Então alguém teve a ideia perigosa: novela todo dia

Em 1963, a TV Excelsior colocou no ar “2-5499 Ocupado”, com Tarcísio Meira e Glória Menezes.

A produção se tornou a primeira telenovela diária da televisão brasileira.

Pode parecer uma mudança pequena.

Não foi.

Colocar uma história no mesmo horário, todos os dias, ajudou a criar aquilo que qualquer plataforma de streaming hoje mataria para conseguir: hábito.

Você não precisava decidir se queria assistir.

Àquela hora, você simplesmente assistia.

A grade de programação virou parte da rotina brasileira. A novela começou, o jantar atrasou. A novela terminou, a criança foi dormir. O capítulo final virou assunto no trabalho no dia seguinte.

Muito antes de alguém inventar a expressão engajamento, a televisão já sabia exatamente como produzi-lo.

E um país continental começou a assistir à mesma notícia

Em 1º de setembro de 1969 estreou o Jornal Nacional, apresentado por Hilton Gomes e Cid Moreira.

Foi o primeiro telejornal brasileiro transmitido em rede nacional. A infraestrutura de telecomunicações permitia que imagens produzidas em diferentes pontos chegassem simultaneamente a várias regiões do país.

Isso mudou mais do que o jornalismo.

Um país continental, cheio de sotaques, culturas e realidades diferentes, passou a experimentar algo novo: assistir à mesma coisa ao mesmo tempo.

A televisão não apenas mostrava o Brasil aos brasileiros. Ela começava também a construir uma determinada imagem do que era “o Brasil”. E isso significa poder.

Porque escolher o que entra na tela também significa escolher o que milhões de pessoas verão e o que ficará fora dela.

Até que o Brasil ganhou cor

Em 10 de fevereiro de 1972, a Festa da Uva, em Caxias do Sul, tornou-se o primeiro evento transmitido oficialmente em cores em rede nacional no país.

Hoje parece uma atualização técnica. Na época, era quase ficção científica.

A sala continuava sendo a mesma. A antena continuava no telhado. Mas aquele quadrado que havia chegado ao Brasil apenas 22 anos antes já conseguia trazer o mundo em cores para dentro de casa.

E a própria linguagem da televisão mudou junto.

Cenários, figurinos, publicidade, jornalismo e novelas passaram a ser pensados para um público que agora enxergava muito mais do que tons de cinza.

A pioneira não sobreviveu para assistir ao que criou

Existe uma ironia especialmente boa nessa história.

A emissora que colocou a televisão no Brasil não chegou aos 30 anos. Em julho de 1980, o governo federal declarou encerradas concessões ligadas à Rede Tupi em meio à grave crise financeira e administrativa do grupo. A pioneira saiu do ar. A televisão brasileira continuou.

Vieram novas redes, novos programas, novas estrelas, novas guerras por audiência.

E o aparelho foi ocupando um espaço tão central na casa brasileira que durante décadas a disposição da sala dizia tudo:

sofá de um lado.

TV do outro.

Quase como um altar doméstico.

Depois, a televisão começou a perder o monopólio da nossa atenção

Em 2007 começaram, em São Paulo, as transmissões comerciais da televisão digital brasileira. Imagem melhor. Som melhor. Novas possibilidades. Só que outra transformação já estava chegando e talvez fosse muito maior. A internet não melhoraria apenas a televisão. Ela acabaria com uma das regras fundamentais que sustentaram seu poder durante décadas: o horário.

A televisão dizia: “começa às nove”.

A internet respondeu: “assista quando quiser”.

Depois veio o streaming. Depois o YouTube. Depois vídeos curtos. Depois um algoritmo que não precisava mais convencer uma família inteira a assistir à mesma coisa. Bastava descobrir o que você queria ver.

A sala se fragmentou em milhões de telas.

Só que a TV não morreu

Talvez essa seja a parte mais interessante.

Há décadas anunciam a morte da televisão.

Ela sobreviveu ao videocassete, à TV por assinatura, ao DVD, à internet, ao YouTube e ao streaming.

Mas sobreviveu mudando.

A novela virou conteúdo de plataforma. O telejornal ganhou cortes para redes sociais. O programa de auditório produz memes. A emissora publica no TikTok o trecho de um programa feito originalmente para uma tela que fica na sala.

A televisão já não controla nossa atenção como antes. Mas boa parte da linguagem que consumimos nas novas telas ainda nasceu nela.

O reality show que domina as redes. A novela que vira meme. O debate que repercute no X (nosso falecido Twitter eterno). A entrevista recortada no TikTok. O apresentador que vira assunto no Instagram.

A TV perdeu o monopólio da tela.

Não necessariamente perdeu o poder de pautá-la.

76 anos depois

Em 1950, algumas pessoas se reuniram diante de pouquíssimos aparelhos para tentar entender aquela imagem que aparecia dentro de uma caixa.

Em 2026, carregamos telas no bolso capazes de transmitir praticamente qualquer coisa produzida no planeta.

Mudou a tecnologia. Mudou a velocidade. Mudou nossa paciência. Mas uma coisa permanece curiosamente parecida: continuamos procurando uma tela para descobrir o que aconteceu, acompanhar uma história, reclamar de alguém, torcer por alguém ou simplesmente esquecer o mundo durante algumas horas.

A televisão brasileira completa 76 anos. Talvez ela já não seja mais o centro da sala. Mas tente contar a história recente do Brasil sem passar por ela.

Boa sorte.

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