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Quem matou Odete Roitman? O crime mais brasileiro da televisão

Trinta e sete anos depois, o Brasil voltou à cena do crime — com mais teorias, menos audiência e a mesma paixão por transformar novela em assunto nacional.

Redação BROOM4 min de leitura
Montagem com Beatriz Segall e Débora Bloch caracterizadas como Odete Roitman
Duas Odetes, o mesmo mistério: Beatriz Segall na versão original e Débora Bloch no remake de Vale Tudo.

Durante alguns dias de 1988, o Brasil teve uma única investigação em andamento. Não era conduzida pela polícia, não corria em segredo de Justiça e tampouco respeitava o horário comercial. Começava depois do jantar, diante da televisão, e envolvia milhões de investigadores amadores tentando responder à pergunta que atravessou a sala de casa e ganhou as ruas: quem matou Odete Roitman?

A vilã de Vale Tudo, vivida por Beatriz Segall, foi assassinada na véspera do Natal. Restavam menos de duas semanas para o fim da novela. Tempo suficiente para suspeitas virarem conversa de elevador, aposta, manchete e campanha publicitária. O país não apenas acompanhava uma história: participava dela.

Ao final, descobrimos que Leila havia atirado em Odete por engano, pensando atingir Maria de Fátima. Era uma solução de novela, claro. Mas o fenômeno ao redor do crime dizia muito mais sobre o Brasil do que sobre a vítima.

Vale Tudo perguntava, desde o título, até onde alguém poderia ir para vencer no país. De um lado, Raquel insistia que honestidade ainda servia para alguma coisa. Do outro, Maria de Fátima, Marco Aurélio e a própria Odete tratavam ética como um acessório dispensável. Quando a personagem mais poderosa da trama caiu, investigar sua morte virou quase um plebiscito nacional sobre culpa, privilégio e impunidade.

O Brasil não queria apenas descobrir quem puxou o gatilho. Queria saber se, ao menos na ficção, alguém pagaria a conta.

Talvez por isso o mistério tenha resistido tanto tempo na memória. Odete Roitman não era apenas uma vilã eficiente. Era a caricatura perfeitamente reconhecível de uma elite que desprezava o país enquanto lucrava com ele. Sofisticada, cruel e absolutamente convencida de que as regras existiam para os outros, ela parecia exagerada até o Brasil real aparecer no noticiário.

Trinta e sete anos depois, o remake de Vale Tudo devolveu Odete à televisão, agora interpretada por Débora Bloch. O público já não estava reunido diante do mesmo aparelho, no mesmo horário. A audiência se espalhou entre streaming, cortes, memes, comentários e vídeos de reação. O sofá virou timeline; a conversa do dia seguinte começou antes mesmo de o capítulo terminar.

O mecanismo, porém, continuou reconhecível. Cada gesto virou pista. Cada personagem ganhou defensores, acusadores e uma perícia paralela nas redes. O país novamente transformou ficção em investigação coletiva — com mais teorias, menos audiência concentrada e a mesma paixão pelo drama.

A nova versão mudou o destino da personagem. Odete foi baleada por Marco Aurélio, forjou a própria morte com a ajuda de Freitas e apareceu viva no capítulo final. Um desfecho diferente do original e, à sua maneira, ainda mais brasileiro: depois de todos procurarem um culpado, quem saiu por cima foi justamente quem parecia ter perdido.

Mas reduzir o fenômeno à identidade de quem atirou seria perder o melhor da história. O verdadeiro suspense sempre esteve fora da cena do crime. Estava na nossa vontade de comentar juntos, na facilidade com que elegemos culpados e na esperança quase infantil de que uma narrativa — qualquer narrativa — consiga organizar o caos, punir os maus e recompensar os bons antes dos créditos finais.

Novela é uma das formas que o Brasil inventou para conversar consigo mesmo. Durante décadas, ela ofereceu um vocabulário comum a um país enorme e desigual. Personagens atravessaram gerações porque condensavam medos, ambições e contradições que reconhecíamos sem precisar explicar. Odete virou sobrenome da arrogância. Maria de Fátima, atalho para a ambição. E a pergunta sobre o assassinato deixou de ser apenas uma chamada de capítulo para se tornar parte da cultura popular.

Hoje, talvez nenhum programa consiga parar o país como em 1988. A atenção está fragmentada demais, as telas são muitas e o algoritmo prefere que cada pessoa viva dentro do próprio suspense. Ainda assim, basta alguém perguntar “quem matou Odete Roitman?” para várias gerações entenderem a referência.

Porque, no fundo, o caso de Odete nunca foi apenas sobre quem puxou o gatilho.

Foi sobre um país que adora julgar, desconfia do final e, apesar de todas as evidências, continua torcendo para que a história faça justiça. Foi sobre quem ainda acredita que o Brasil vai ter um final feliz.

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